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Onde beisebol e futebol são iguais
Publicado em 17 de Fevereiro de 2004, às 14h35
Este é um espaço que o site da CBBS dá a atletas, técnicos, dirigentes, jornalistas ou qualquer outra pessoa que queira falar um pouco de beisebol. Confira!
Por Yuji Azuma, Jornalista
yuji_20@hotmail.com
Futebol e beisebol, a princípio, são práticas esportivas totalmente diferentes no Brasil, tanto dentro quanto fora de campo. Enquanto a primeira monopoliza o coração da massa, da mídia e dos patrocinadores, a segunda amarga uma situação periférica. Há, porém, uma semelhança no processo histórico de ambas. Um fenômeno que foi definitivo para tornar o esporte jogado com os pés em uma paixão nacional começa a ser notado no cenário beisebolístico brasileiro: a miscigenação.
Até as primeiras décadas do século XX, o futebol era praticado somente pela elite, principalmente entre os abonados descendentes de ingleses, portugueses e italianos. Com a marcante influência européia, o jogo era truculento, metódico, e, pode-se dizer, quadrado. Até na linguagem havia forte influência do topo da pirâmide social: o jogo era chamado de match e o juiz de referee. Havia até uma expressão precursora do "olha o ladrão": man on you.
Aos poucos, a modalidade extrapolou os muros dos clubes de ricos e ganhou a periferia, o morro e o moleque. Não sem conflitos. A princípio, as principais equipes não aceitavam mestiços e negros. Toleravam, no máximo, pobres, desde que fossem brancos.
Um exemplo emblemático foi narrado por Mário Filho, em sua obra-prima O negro no futebol brasileiro. Na década de 10, o mulato Carlos Alberto saiu do América para atuar no Fluminense, um dos clubes mais racistas da época. Para se "embranquecer", o atleta decidiu passar pó-de-arroz no rosto. No meio da partida, o sol infernal e o suor fizeram com que a farsa fosse notada. A torcida adversária não perdoou e, em coro, debochou: "Pó de arroz! Pó de arroz!", apelido pelo qual o tricolor carioca é até hoje tratado.
Com o passar dos anos a mistura de raças foi inevitável e o esporte incorporou a ginga, a malandragem e o improviso, características do futebol praticado nas ruas e várzeas dos subúrbios. Os cinco títulos mundiais e surgimento de craques como Leônidas, Nilton Santos, Garrincha, Pelé, Romário e Ronaldo provam que a miscigenação foi fundamental para transformar o Brasil em referência internacional.
No diamante
Embora haja registro de funcionários de multinacionais norte-americanas jogando beisebol em São Paulo no início do século passado, foram os imigrantes nipônicos que difundiram o esporte. A influência oriental é marcante até hoje. Jogadores, técnicos e torcedores são ainda, em sua maioria, descendentes da Terra do Sol Nascente, assim como os dirigentes de clubes e entidades representativas. Ou seja, o japonês exerce hoje no beisebol o papel que o europeu teve no futebol brasileiro do início do século passado.
Não há dados sobre quem foi o primeiro não-nikkei a entrar em um diamante, como é conhecido o campo de beisebol. Alguns nomes ficaram conhecidos, como Paul (Gigantes), Pedro Salantini (Palestra Itália), Washington (Ocean), além de Mickey, Corazza e Vallace (São Paulo), atletas que já serviram a seleção brasileira após a Segunda Guerra Mundial, como mostra o livro Beisebol: histórias de uma paixão, organizado pela atual diretora do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, Célia Abe. Um dos maiores atletas brasileiros de todos os tempos também não tinha olhos puxados: Samir Abujamra, pentacampeão nacional e tricampeão sulamericano.
Há alguns anos, um não-nikkei se destacar no beisebol era fato isolado. Mas, desde o fim da década passada percebe-se um movimento para difundir entre os brasileiros o jogo que consagrou Babe Ruth e DiMaggio.
Hoje, projetos como os do CT Yakult, em Ibiúna, o Beisebol Popular, no bairro de Pirituba, na capital paulista, e da Acel, em Londrina (PR), são responsáveis pelo ingresso de jogadores que nunca tinham ouvido falar no esporte. A CBBS não tem dados sobre quantas ações desse tipo há no País. Sabe-se, no entanto, que são mais de 20, espalhadas por vários estados, entre os quais Rio de Janeiro e Mato Grosso, onde a modalidade é pouco difundida.
Um dos frutos mais notáveis dessas iniciativas é Gilmar Pereira. Saído do projeto da Acel, ele é hoje uma das maiores promessas do beisebol nacional. Com mais de 1,90 metro, o arremessador norte-paranaense, mestiço, é presença garantida nas seleções nacionais das categorias de base. Um lançamento de Gilmar pode atingir mais de 150 km/h.
Outro dado que evidencia a miscigenação é a presença cada vez maior de não-descendentes no time principal do Brasil. Na equipe que disputou no fim de 2003 a Copa do Mundo de Cuba e o Pré-Olímpico do Panamá, sete dos 24 convocados não tinha parentesco algum com japonês, inclusive o capitão, Camargo.
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